O Dia de São Martinho aquece-nos a alma e o corpo. À lenda de uma capa partilhada sucedem-se séculos de partilha, a maior parte delas à volta de uma mesa. Partilham-se histórias e risadas; trocam-se sorrisos e olhares; nascem irmandades e amores. Uma mesa repleta, o cheiro das castanhas, o doce das broas, a cor do vinho novo e, certamente, haverá alegria e boa disposição.
Celebra-se, sim, a amizade, o encontro, a partilha. Pergunto-me, então, onde ficou a capa daquele célebre e incógnito cavaleiro que ofereceu a sua capa a um pobre desconhecido num gesto de gratuita bondade.
Passou a capa a ser sinal de riqueza? Passou a capa a objeto de vaidade? Passou a capa a forma de esconder algo ou de se esconder de alguém? Haverá ainda capas de São Martinho por esse mundo fora?
Acredito que sim.
O que de mais relevante esta lenda nos mostra é a nossa capacidade de fazer pelos outros, de sermos empáticos, de equacionarmos as nossas necessidades face às dos outros. Será esta uma simples quimera num mundo e num tempo marcado por guerras e violência?
Não, não o é de todo!
Existem capas de São Martinho na preocupação de uma vizinha perante a porta do lado que não se abre; nas funcionárias das IPSS que levam não só a sopa, mas sobretudo o sorriso e o carinho aos mais sós; nos voluntários que não só aconchegam o estômago dos que não têm casa, como também trazem uma palavra de conforto; nos narizes vermelhos que semeiam esperança em locais onde a morte e a dor espreitam.
E mais haveria certamente para lembrar. O Dia de São Martinho deveria, de facto, ser encarado como um ensaio, uma espécie de pré-advento natalício em que se pousa o olhar no outro, se ouve o outro, se entende o outro. Mas, antes de mais, em que nos transformamos para que, sem chapéus nem capas, nos lembremos de onde vem a felicidade de sentirmos e sermos o que verdadeiramente importa.
Bem-haja às capas de São Martinho.
Ana Paula Almeida
