Está frio!
O nevoeiro cai sobre a serra. O cheiro das lareiras invade as ruas da aldeia. As chaleiras sibilam nos fogões. Os estufados perfumam as cozinhas das casas de xisto. A lenha acumula-se debaixo dos telheiros. Animais de todas as espécies aninham-se junto uns dos outros. À janela, rostos enrugados fixam o seu olhar no vazio da paisagem acenando para os espectros que por ali passam.
Os seus olhos cansados não precisam de se esforçar muito. Sabem as horas de cada um, distinguem as sombras de cada animal, sabem de cor o canto de cada pássaro, discernem o movimento de cada ramo. Não observam a paisagem, conhecem-na bem demais. Não escutam o vento, já lhes sabem as cantigas.
Não esperam… Não procuram… apenas fitam, fitam o vazio que naquelas terras ficou.
Fitam as ausências que naquelas casas vivem. A cidade roubou-lhes os filhos e os netos sem vergonha nem dó. Impôs a sua lei e deixou-os cair no esquecimento. As candeias das casas vizinhas foram-se apagando uma após a outra. As portas das divisões foram-se fechando uma de cada vez. Os armários foram-se esvaziando um a um. As ervas daninhas tornaram-se donas de algumas casas, rompendo os telhados para imporem a sua força perante a obstinação de algumas enxadas cada vez mais enfraquecidas, mas ainda assim, prontas a mostrar a sua teimosia.
Ficaram eles apesar da insistência daqueles para quem partir seria porventura o único destino inadiável. Mas a ausência não lhes abafou a alma. Ao invés alimentou-lhes a ousadia, por isso, quando não está frio e o sol se deleita sobre a serra, os outros voltam. Regressam os filhos, retornam os netos.
E sorriem, eles e os outros.
Banham-se nas águas do rio. Espojam os seus corpos na verdura dos campos. Desfrutam dos bancos de granito junto às casas. Partilham as histórias de quem já muito viveu. Trocam sorrisos e risadas à volta de um copo de vinho e de uma partida de cartas. Os mais novos correm pelas ruas, descobrem caminhos escondidos, fazem renascer cantilenas e brincadeiras de outrora.
Mas, agora, permanece o vazio que está frio!
Ana Paula Almeida
