Todos os dias a mesma rotina.
O despertador à mesma hora, o pequeno-almoço sempre igual, o trajeto que já se faz de olhos fechados (não no sentido literal, claro, que na estrada é melhor ter os olhos bem abertos) … os mesmos carros com os mesmos rostos a fazerem os mesmos gestos (uns põe batom, outros penteiam o cabelo com as mãos, uns cantam as músicas da rádio, outros bocejam ininterruptamente).
E, depois, no meio desta monotonia diária, há dias assim.
Dias em que se entorna o café, se queima as torradas, se esquece o telemóvel em casa, o carro não pega, o trânsito não anda, vestimos a camisola ao contrário, perdemos o botão da camisa, rompemos as meias logo ao sair de casa … enfim tudo o que possa correr mal, corre mal, assim o diz a lei de Murphy ou o karma como outros lhe chamam.
Eu diria que é simplesmente a vida. E então como é que se gere um dia desses.
Primeiro, dizemos mal da nossa vida, culpamos o tal karma, acusamos meio mundo de tudo o que de errado nos está a acontecer. Depois, entramos em modo desespero, de braços cruzados, debaixo de uma chuva imensa que veio não sei de onde sem guarda-chuva e com sandálias rasas. No fim, fazemos o que está certo. Sentimos a chuva a cair no nosso rosto, levantamos a cabeça e rimos de tudo o que aconteceu hoje. Rimos sem razão para isso, simplesmente porque foi apenas um dia complicado, mas, no final, estamos vivos e de boa saúde.
Por isso, amanhã virá outro dia com um café bem quente, umas torradas deliciosas tudo no sítio certo, um caminho descansado, uma roupa bem janota… tudo a correr sobre rodas. E será um dia de sorte, há dias assim.
Sim, no fim de contas, há sempre outro dia, outra oportunidade. Quando acordamos a única certeza que temos é, na verdade, a incógnita que cada dia carrega. E aí reside toda a beleza da nossa existência: nunca sabendo o que cada dia nos traz, oferece-nos todas as possibilidades.
Por isso, mesmo com dias assim, há sempre a esperança.
Ana Paula Almeida
