Amores e desamores

14 de fevereiro. Dia de São Valentim.

Bolos em forma de corações, ramos de rosas vermelhas, jantares à luz das velas, músicas e quadras românticas, sorrisos e beijos apaixonados.

14 de fevereiro. Dia de São Valentim.

Corpos embrulhados em cartões rasgados nas esquinas das ruas, mulheres espancadas nos recantos de suas casas, crianças que nunca conheceram o colo de uma mãe. A dualidade é, de facto, um dos traços inerentes à própria humanidade. Somos capazes de amar enternecidamente e de odiar endurecidamente.

Homens dão a vida para salvar outros do fogo ou da morte. Homens dedicam a sua vida a espalhar o terror e a morte.

Estranho mundo este em que somos capazes do melhor e do pior.

Amamos de mil e umas maneiras: uns amam mais os filhos a cada segundo, outros amam o/a seu/sua companheiro/a acima de tudo; uns amam sorrateiramente, outros gritam o seu amor; uns amam apesar da distância, outros amam sem suportar a distância. E há aqueles que se amam a si próprios acima de tudo. Será isso amor ou desamor?

Quem ama a si mesmo sem se dar aos outros, quem ama a si mesmo usando os outros a seu bel-prazer, quem ama a si mesmo querendo apenas receber sem dar, saberá verdadeiramente o que amar ou apenas desamar?

Amar o outro, independentemente de quem sejam independentemente do laço que tal represente, independentemente da forma como se concretiza, não nos imiscui de se amar a si próprio.

Pelo contrário, significa partilhar com os outros todas as potencialidades que em nós habitam, permitindo, por eles e com eles, superar-nos acima de qualquer expetativa. Só é capaz de amar outrem verdadeiramente e profundamente quem acreditar viver em si mesmo nos outros. Quem ama apenas a si mesmo não é capaz de vivenciar a alegria de encontrar no outro e com o outro a sua própria definição.

E esse amor não se faz apenas de bolos em forma de corações, ramos de rosas vermelhas, jantares à luz das velas, músicas e quadras românticas, sorrisos e beijos apaixonados. Também se constrói a partir de silêncios, de gestos impercetíveis, de pensamentos secretos.

14 de fevereiro. Dia de São Valentim.

Festeja-se o amor sem dar tréguas à guerra.

Ana Paula Almeida

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