Chove lá fora!

Chove lá fora, ouço o barulho dos pingos da chuva a cair na varanda, vislumbro as marcas de água na janela, sinto o cheiro da terra molhada. Estou sentada no conforto do sofá embrulhada numa manta felpuda a saborear uma chávena de chá e uns biscoitos.

Tenho sorte, sim, muita sorte.

Os pingos da chuva não caem no papelão que me serve de cama, as marcas de água não se esbatem nos farrapos que me servem de roupa, não deito o meu corpo dolorido na terra molhada. É difícil imaginarmos a dor dos outros quando ela se esconde nos recantos escuros de uma cidade adormecida.

E isso não faz de ninguém monstros insensíveis ou seres socialmente desprezíveis.

Apenas nos centramos, inevitavelmente e naturalmente, no nosso quotidiano, afastados daquilo que muitas vezes é diferente, incómodo ou simplesmente esquecido. Por isso, mesmo no aconchego da nossa casa, quando a chuva caí lá fora, devemos fazer o esforço mental de pensar que não vivemos todos da mesma forma, não dispomos todos das mesmas oportunidades, não experienciamos todos o mundo da mesma maneira. Penso que podemos chamar a isso empatia, algo que nem sempre nasce connosco, mas que também se pode aprender.

É um caminho: primeiro não desviamos o olhar dos outros, depois ouvimos a sua história e, por fim, estendemos a mão. Muitos de nós fazem este caminho. Saem do calor de sua casa, deixa a chuva cair-lhes nos ombros e distribuem uma sopa quente com uma palavra de conforto como sobremesa. Outros colocam o seu donativo na caixa das esmolas para famílias carenciadas à entrada da igreja. Alguns partilham a sua despensa ou a sua mesa com aqueles a quem a vida não sorriu.

Falta, então, decidir o que cada um de nós, independentemente dos outros, pode e está disposto a fazer.

Para além dos discursos, das campanhas e das decisões, a chuva continua a cair para uns lá fora e para outros cá dentro.

Ana Paula Almeida

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