Aos que já partiram
Aos que já partiram tenho histórias para contar.

Preciso de lhes dizer o que vivi sem eles ao meu lado. Preciso de lhes murmurar os segredos que a mais ninguém oiço pronunciar. Preciso de lhes confessar a verdade que a mim própria tento negar.

A ausência define-se pelo vazio, pela inexistência, pela inação. Será tanto assim?

Pois bem, penso que não. A ausência define-se pela presença das recordações, pela incessante procura de uma justificação, pela quotidiana dor da partida. Por isso, os que partiram não o fizeram verdadeiramente. Falta-nos o seu abraço, falta-nos o seu riso, falta-nos o seu olhar. Mas, restam-nos o exemplo, restam-nos os ensinamentos, restam-nos os álbuns de fotografias. Uma recordação não é o mesmo do que um abraço que não existe, é bem verdade.

Nada substitui o calor do abraço vivido no momento em que explodimos de alegria ou tropeçamos no sofrimento. Nada se compara ao riso partilhado perante a alegria de um encontro. Nada se iguala à doçura do olhar que nos conforta ou nos dá confiança nos momentos difíceis. Sim, de facto, e acima de tudo, a ausência dói. Tira-nos a vontade de sorrir. Enche os nossos dias de negritude. Encerra-nos numa bolha de tristeza. Dói na alma e dói no corpo que se deixa levar por náuseas, tensões e sufocos.

Mas os que já partiram não nos deixam para sempre. Vivem em nós quando nos mantemos fiéis ao que vivemos com eles. Vivem connosco quando lembramos as palavras que diziam perante uma dada situação. Vivem por nós quando a nossa vida está repleta de frutos das suas conquistas. Sim, é possível falar com aqueles que não nos podem responder. É possível ouvir aqueles que já não podem falar. Somos feitos de passado, presente e futuro. Amálgama de vários tempos, de múltiplos encontros, de diversas paisagens. Os que deles fizeram parte deixam em nós marcas, recordam-nos forças, inspiram-nos vontades.

Por isso, aos que já partiram continuo a ter muito para contar e no silêncio da resposta saberei encontrar a certeza da sua presença.

E sim, mesmo assim e acima de tudo, a ausência dói.

Ana Paula Almeida

Scroll to TopAviso de cookies do WordPress by Real Cookie Banner