Há já alguns anos que o primeiro dia de outono facilmente se poderia confundir com o primeiro dia de verão.
De facto, o verão de São Martinho, mais do que uma tradição, tem sido uma realidade cada vez mais consistente. Comer castanhas quentinhas num fim de uma tarde de outono embrulhados num belo xaile de flanela ou numa aconchegante manta de lã já não é para nós. As castanhas quentinhas são, sim, degustadas numa esplanada, de manga curta, a aproveitar os últimos raios de sol do dia. Sim, as sociedades mudam a uma velocidade estonteante.
Cada um de nós, individualmente e coletivamente, envelhece e transforma-se continuamente. Os objetivos traçados na juventude desvanecem-se ou intensificam-se ao longo dos anos. O que nos rodeia, o que se nos exige, o que se nos permite está em constante atualização. O planeta já não é o mesmo, o ciclo das estações alterou-se, alguns conceitos base como a família ganharam outros contornos, as crianças crescem em moldes diferentes. A parentalidade enriqueceu-se, já não se resumindo a um progenitor masculino e um feminino que vivem juntos até que a morte os separe. Ser pai e ser mãe já não corresponde a uma faixa etária específica nem a um rol de requisitos predeterminados. As crianças já não obedecem cegamente sem questionar as decisões/opções/ realidades que se lhes quer impor.
Os jovens expressam livremente a sua opinião perante a comunidade através das mais diversas linguagens, sejam elas de caris político ou artístico. A morte não é encarada apenas como uma inevitabilidade, mas também como uma escolha. A despedida da vida já não está reservada a uma sepultura e a um protocolo único, abrangendo uma multiplicidade de rituais. Em suma não se nasce, não se vive nem se morre de forma única e determinada.
E estas não são, de todo, palavras saudosistas, pois, ao dizer que já nada era como dantes, não se aceita indubitavelmente que o passado era muito melhor. Podem variar as circunstâncias, pode variar o local, pode variar a hora, pode variar o estado do tempo… o importante é, sem dúvida, aquele momento.
Centrarmo-nos no essencial sem as lamúrias sobre tudo o que nos rodeia dá, de facto, um sabor mais intenso e mais revigorante à vida.
Mais do que o xaile, a manta de lã ou a esplanada, o que, na verdade, conta mesmo são as castanhas!
Ana Paula Almeida
