Apesar de nunca ter participado numa marcha, é uma das tradições populares que aprecio grandemente. E não me agrada especificamente a melodia, a letra, a coreografia, os fatos ou os arcos, mas sim o resultado final no seu todo. O que, a meu ver, tem imenso valor é o facto de homens e mulheres, mais ou menos estreantes, mais ou menos seniores, dedicarem uma parte substancial do seu tempo e esforçarem-se por criar um espetáculo para os outros. Decerto o farão com muito gosto e, como diz o ditado, quem corre por gosto não cansa.
Pois bem, mas cabe-nos a nós, do lado de cá, reconhecer e valorizar esse esforço. Sim, porque a cultura não é só feita por profissionais, que têm um papel fundamental na vivência de todos nós. É fruto também destas manifestações amadoras (sem qualquer demérito na aceção da palavra) através das quais se vai construindo a nossa identidade. Sim, a cultura vê-se, ouve-se, mas, acima de tudo, vivencia-se. Para além disso, as marchas são uma manifestação imponente do que o esforço coletivo consegue alcançar. Os marchantes assemelham-se a soldadinhos de chumbo perfeitamente alinhados cujos rostos perdem a sua identidade para se confundirem com um todo, como se fossem múltiplos braços oriundos de um só corpo. Todos terão gostos diferentes. Todos terão cores preferidas diferentes. Todos terão gostos musicais diferentes. Todos terão dotes vocais e de dançarino diferentes. Mas conseguem pôr isso tudo de lado para criar um espetáculo único em que o conjunto se sobrepõe à individualidade. No final vence a marcha. Não vence a Maria nem o Joaquim.
Fico a pensar se não deveríamos instaurar marchas nas empresas/instituições privadas/públicas. Pode ser que, assim, se percebesse a desvantagem de se trabalhar exclusivamente para fazer prevalecer vontades, pontos de vista e/ou objetivos individuais e se entendesse a vantagem do consenso, do diálogo, da cedência, em suma, da empatia.
Vivam as marchas!
Ana Paula Almeida
