De facto, a educação é um pouco como o arroz doce, está em todas… em todas as campanhas eleitorais, em todos os debates públicos, em todos os planos de desenvolvimento. Não me interpretem mal, não quero aqui descurar a importância desta temática na nossa sociedade, até porque, enquanto professora, estaria a dar um belo tiro no pé. Questiono-me muitas vezes porque se fala tanto de educação fora das salas de aulas e surgem tantos achismos relativamente a esta temática. Talvez os clássicos, por vezes esquecidos, nos possam ajudar.
Já dizia o nosso poeta Camões, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. E lá vai a escola a reboque de novos anseios, reivindicações, direitos e legislações. Vem a pandemia, muda-se a pedagogia. Baixam os resultados das avaliações externas, mudam-se os programas. E muda-se e muda-se e muda-se. Não resulta, pois bem, muda-se novamente o que já mudou. Não havemos nós de ficar confusos no meio de tanta mudança? Bem, esclarecemos desde já, é claro que a escola terá de mudar quer queira quer não, até porque é um sistema vivo e dinâmico.
Ah, um sistema composto de seres vivos, professores, alunos, pais, funcionários, técnicos especializados. E afinal estes mudam ou não mudam? Muda-se o ser, muda-se a confiança, dizia mais uma vez Camões. Deixem a escola mudar por vontade e com confiança. Temos de confiar nos nossos alunos, professores, funcionários e técnicos especializados que não se deixam levar pela inércia, que conhecem as necessidades e potencialidades dos alunos, que estão cientes das expectativas dos outros e são capazes de se situar perante as mesmas.
Mas não deixemos mudar tudo.
O abraço após um joelho esfolado, a preocupação perante um rosto triste, o partilhar do lanche, a vontade de defender o mais frágil, o levar a mochila ao colega que está de muletas, o ensinar a jogar ao berlinde, a mão dada para confortar… e onde fica o currículo gritarão alguns espavoridos com estas divagações.
Desculpem, distraí-me a pensar nestas coisas que não saem nos exames nem contam para a média de acesso à universidade. Talvez seja culpa da poesia, que afinal o nosso Camões até tinha olho para a coisa mesmo que fosse só um!
Ana Paula Almeida
