Camões, a intemporalidade das palavras!

A língua portuguesa é, de facto, um património sem igual que chegou até nós graças à persistência daqueles para quem escrever foi, é e ainda será um desígnio sobretudo pessoal. Para Luís de Camões tratava-se, também, de um desígnio nacional daquele que cantava “a gente surda e endurecida”.

Ao longo de mais de 25 anos de ensino, muitos foram os alunos que me questionaram sobre qual a relevância, qual a utilidade, qual a intencionalidade de estudarem Os Lusíadas ou a Lírica Camoniana, mostrando o seu enfado e resistência perante o engenho camoniano. E eu, silenciosamente, atrevo-me a responder-lhes que, de facto, não irão aplicar nem Os Lusíadas nem a Lírica Camoniana na maior parte das tarefas da sua atividade profissional futura.

Porém, digo-lhes em voz alta, que serão, decerto, melhores ouvintes se, inspirados neste grande poeta, reconhecerem a importância das palavras, a acuidade das palavras, a intencionalidade das palavras.

Serão, sem dúvida, melhores comunicadores se observarem a pluralidade, a diversidade, a subtileza e a destreza de Luís de Camões no manejar da língua portuguesa. Serão, certamente, melhores homens e mulheres na construção de um mundo onde se enaltece a importância do amor, onde se reconhece a diversidade da beleza, onde se denuncia a injustiça social, onde se procura valorizar a cultura e as artes.

Serão, indubitavelmente, melhores profissionais ao recordarem as reflexões deste autor sobre o reconhecimento do mérito, o poder corruptor o dinheiro, a fragilidade humana, a necessidade de combater a ociosidade. Serão, claramente, mais criativos se viajarem nesta epopeia por mundos distantes, imaginando deuses, marinheiros e ninfas a atravessar mares e oceanos. Serão, ainda, pessoas mais capazes de entender o mundo que os rodeia, apreciando os contributos do passado, as transformações sociais bem como as continuidades e ruturas que ocorreram ao longo dos séculos.

Serão, por fim, adultos críticos, capazes de entender que os textos, as mentalidades, as manifestações artísticas pertencem a determinados tempos e lugares, restringindo-se a certos territórios ou construindo afinidades entre vários espaços.

Afinal, estudar Os Lusíadas ou a Lírica Camoniana não é, meus caros alunos, perda de tempo, é, sim, riqueza de aprendizagem.

Ana Paula Almeida

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