Início de um ano letivo, no meio de uma multidão de calças de gangas e tee-shirts coloridas, cabelos esticados e caracóis rebeldes, ténis desbotados e sapatilhas com brilhantes são muitos os rostos naquele pátio. Uns, extrovertidos, cumprimentam efusivamente todos à sua volta.
Outros, reservados, pousam os olhos no chão e esboçam uns tímidos “Olá”. São muitos, de facto, parecendo figurinos perdidos num palco sem fundo. Artistas? Sim, alguns o serão como rapidamente os viremos a descobrir. Mas, a escola irá organizá-las. Desta multidão sairão turmas, das turmas sairão grupos de trabalho e até tutorias. Todos arrumadinhos numa sala com um horário comum, serão a turma A, B, C aquela “terrível” ou aquela “turma boa” que todos, professores, pais, alunos procuram que a sorte, ou outras forças maiores, lhes atribua.
Mas, mais do que isso, eles próprios irão determinar os seus papéis e representá-los com mais ou menos afinco consoante… tudo e mais alguma coisa. Difícil é saber de antemão como e porquê. Mas será que alguém se interessa por isso?! Haverá os betinhos, os nerds, os geeks, os gamers, os RPGistas, os Fandom, os totós, os estranhões, as misses, os caixas de óculos, os saloios…. e afins.
Desculpem a ignorância ou arcaísmos de alguns destes termos, mas esta mania de andar a arrumar seres humanos em gavetinhas causa-me comichões. Deixamos de ser o Manuel, a Maria, o António ou a Francisca para sermos uns clones de um ídolo, seja ele mediático ou um qualquer lá do bairro, que decide o que visto, o que faço, o que digo. Ser fora da caixa numa escola dá uma trabalheira desgraçada e até alguns dissabores, de tal forma que mais vale desistir da nossa individualidade para passarmos despercebidos e não estarem constantemente a apontarem-nos o dedo. Seres fracos e inseguros estes jovens que não aguentam a pressão de um recreio onde mil olhos se pousam sobre nós, onde bradam insultos e piadas! Sim, porque o sussurrar é algo que já não é de bom tom usar. Pelo menos assim não são desonestos, fazem tudo às claras.
Valha-nos a franqueza! Sim, porque a capacidade de se exprimir, de opinar, de se afirmar perante os outros são, hoje em dia, marcos desta nossa sociedade muito opressiva, desculpem, expressiva. Estes termos tão próximos por vezes colocam-nos nalgumas encruzilhas!
Como diz o costume, a língua portuguesa é traiçoeira. E não veremos mais aquele conjunto de figurinos perdidos num palco sem fundo.
O espetáculo começa!
