Crónicas de uma Professora (des)cansada: Será que os números contam mesmo?
46 anos de idade e 23 de serviço… números que já pesam, não só no nosso discurso, mas também na nossa mente. Fazendo contas, metade da minha vida foi passada a dar aulas. Bolas, estou a ficar mesmo velha ou será apenas madura como alguns dizem para enganar os cabelos brancos e as rugas que teimam em aparecer. Cheguei à idade em que ainda se pode arriscar mudar de vida, de profissão, de casa…

A lógica diz-me que me devo sentir exausta, saturada, desmotivada…, em suma, pronta para ir para casa coser meias como se costuma dizer. Fazendo mais umas contas, 23 anos a 35 semanas por ano letivo são 805 semanas de aulas. 805 semanas de aulas a uma média de 25 horas semanais são 20 125 horas. 20 125 horas com uma média de 20 alunos por turma são 402 500 rostos, menos, pois repetem-se ao longo da semana, pensemos num quarto, são 100 625. Não sou, de facto, professora de matemática nem as contas são o meu forte, como a minha conta bancária comprova, mas os números podem, de facto, tornar-se avassaladores.

Pois, eu gosto de olhar para eles de outra forma, como diz a expressão popular “copo meio cheio, copo meio vazio”. São 23 anos de histórias para contar, 805 semanas de experiência, 20 125 horas de diálogos…. Bem, adiante. Não nego o cansaço perante a amplitude da tarefa, o desalento perante o desinteresse de alguns, a revolta perante o descrédito da sociedade. Mas no fim de contas, o prato da satisfação, do gosto e da sensação de dever cumprido pesa mais na balança. Por isso, ao fim de 23 anos continuo a não ter caixa de costura lá em casa.

Sinto-me bem na escola? Às vezes sim, às vezes não. Mas não me apetece voltar atrás quando abro a porta de uma sala de aula. Porque será? Porque nessas salas ficaram histórias para contar.

Ana Paula Almeida

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