A lógica diz-me que me devo sentir exausta, saturada, desmotivada…, em suma, pronta para ir para casa coser meias como se costuma dizer. Fazendo mais umas contas, 23 anos a 35 semanas por ano letivo são 805 semanas de aulas. 805 semanas de aulas a uma média de 25 horas semanais são 20 125 horas. 20 125 horas com uma média de 20 alunos por turma são 402 500 rostos, menos, pois repetem-se ao longo da semana, pensemos num quarto, são 100 625. Não sou, de facto, professora de matemática nem as contas são o meu forte, como a minha conta bancária comprova, mas os números podem, de facto, tornar-se avassaladores.
Pois, eu gosto de olhar para eles de outra forma, como diz a expressão popular “copo meio cheio, copo meio vazio”. São 23 anos de histórias para contar, 805 semanas de experiência, 20 125 horas de diálogos…. Bem, adiante. Não nego o cansaço perante a amplitude da tarefa, o desalento perante o desinteresse de alguns, a revolta perante o descrédito da sociedade. Mas no fim de contas, o prato da satisfação, do gosto e da sensação de dever cumprido pesa mais na balança. Por isso, ao fim de 23 anos continuo a não ter caixa de costura lá em casa.
Sinto-me bem na escola? Às vezes sim, às vezes não. Mas não me apetece voltar atrás quando abro a porta de uma sala de aula. Porque será? Porque nessas salas ficaram histórias para contar.
Ana Paula Almeida
